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Você está voando atrás do avião?

Setembro 2026 · 8 min de leitura

Na era em que uma informação da manhã pode ser antiga a tarde, tenho medo que ao ler esse texto você esteja olhando para um "assunto batido". Apenas mais um artigo entre milhares que falam sobre a revolução que o uso da Inteligência Artificial tem causado em nossos dias, principalmente na área de tecnologia. Mas vou me arriscar mesmo assim.

Tenho visto uma enxurrada de opiniões sobre o assunto. Do ponto de vista daqueles que trabalham diretamente com tecnologia, basicamente vejo dois grupos: aqueles que mergulharam de cabeça no uso da IA e apenas "curtem o momento", e aqueles que falam de uma forma até meio saudosista da "época em que se programava na unha". Acho esse termo engraçado porque me lembra muito antigos profissionais que olhavam para ferramentas modernas e diziam: "Isso aí é coisa de gente fresca! Bom era no meu tempo!"

Acho curioso que aqueles que sempre foram os inovadores — sempre vistos como sinônimo de modernidade — de repente, tornaram-se o seu João, o pedreiro que olha para um servente fazendo concreto na betoneira e fala: "Hoje em dia é muito fácil! Bom era no meu tempo que a gente tinha que virar a massa na mão e bater a laje na unha." Mas por que isso? Será que é insegurança? Medo do desconhecido? Só implicância boba? Ou aquela velha vontade de dizer: "Eu sou raiz, não sou nutella"?

Bem, tive um insight sobre isso assistindo a minha série favorita dos últimos meses e criei uma possível tese pra questão que queria compartilhar aqui. Na verdade, não é bem uma série daquelas que você encontra na Netflix ou Prime Video.

No último sábado, dia 12 de setembro, pousou no CATULEVE — aeródromo na Região Metropolitana de Fortaleza — o Comandante Alexandre Frota, o Alex Bacana, pilotando o seu RV10, um avião experimental monomotor de matrícula PT-ZRQ (Papa-Tango-Zulu-Romeo-Quebec). Ele chegava depois de dar a volta ao mundo em voo solo, passando pelos cinco continentes, sendo o primeiro brasileiro a completar uma volta ao mundo solo em aeronave monomotor experimental. Recomendo fortemente conhecer o trabalho dele no site oficial do projeto, no Instagram @frotaspelomundo e no canal do YouTube Frotas Pelo Mundo.

Mas o que tem a ver um piloto de avião com um profissional de tecnologia e IA? Que misturada é essa? Pois bem, um episódio que me marcou bastante foi quando o Comandante Bacana fazia uma das travessias mais desafiadoras de sua aventura, em algum lugar entre a África e a Ásia, e mencionou que, pela primeira vez na viagem, estava se sentindo "atrás do avião". Ele explicou o que significa isso: em suas viagens, ele sempre planeja cada perna, cada voo, cada decolagem, cada pouso, cada reabastecimento — tudo com muita antecedência. Quando algo acontece no ar, ele já previu e já pensou em possíveis soluções há muito tempo. Isso ele definiu como estar "a frente do avião". Nada do que o avião faz é novo para ele; mesmo os desvios de rota que parecem inesperados já estavam no seu radar. E quando ele se sente atrás do avião, quer dizer que não teve tempo de entender tudo que iria acontecer — ele só está ligando o avião, voando e descobrindo o que vem pela frente, reagindo a tudo. Ele não desistiu da volta ao mundo ao notar isso, ele parou, voltou a estudar e se planejar melhor e só então voltou a voar, de novo "a frente do avião".

Se você já leu o artigo "The Conscience of a Hacker" de Loyd Blankenship — um hacker do grupo Legion of Doom que usava o codinome "The Mentor" —, escrito em 8 de janeiro de 1986 e publicado na revista underground Phrack, vai se lembrar de quando ele fala que o que o encantou no computador foi que ele faz exatamente o que o "comandante" quer fazer: se ele errar, o computador erra; se ele resolver um problema, o computador também resolve. Esse texto, que ficou conhecido como "O Manifesto Hacker", define perfeitamente o sentimento daqueles que são inconformados em apenas olhar para o mundo como ele é e aceitar, mas que sempre buscam uma forma de fazer as coisas de um jeito mais fácil, rápido e inteligente.

Então, a impressão que eu fico é que neste momento muitos desenvolvedores e profissionais de tecnologia em geral estão se sentindo como se, pela primeira vez na vida, estivessem voando "atrás do avião". Pela primeira vez, você sabe que está voando, mas ainda não entendeu bem por quê. Isso é um problema real, porque se a IA começar a se comportar de forma estranha, você vai ter que descobrir o que está acontecendo e tentar corrigir a rota no ar. Não estou falando da IA "cuspir" um código que você não entende — sei que muitos que estão lendo isso são muito mais capazes do que qualquer IA para olhar um código e saber por que ele não está funcionando, ou mesmo entender que aquela solução não é a melhor para determinado problema. Estou falando de não saber como e por que a IA respondeu daquela forma, como ela "pensa", o que podemos criar enquanto entregamos tantas informações (contexto) pro modelo, o que fazer quando acabarem os tokens.

Mas aqui está o ponto: a solução não é rejeitar a ferramenta nem se render a ela. A resposta está em resgatar aquele velho espírito hacker que o Mentor descreveu — a curiosidade impaciente, a vontade de entender como as coisas funcionam por baixo do capô. Quando o Comandante Bacana se sente "atrás do avião", ele não continua voando no escuro. Ele pousa, estuda a rota, planeja cada detalhe e decola novamente sabendo exatamente para onde vai. E é isso que devemos fazer com a IA.

Não se trata de aceitar cegamente o que a ferramenta nos entrega como se fôssemos meros usuários — aquilo que eu chamo de "mente de usuário": alguém que apenas consome o resultado sem questionar o processo. Seria como um piloto que decola sem entender os instrumentos, confiando apenas no piloto automático. Em algum momento, quando a turbulência vier, ele não saberá nem onde está o botão de emergência.

O verdadeiro caminho é aquele que exige coragem: se jogar no problema novo, estudar o modelo, entender como os prompts funcionam, experimentar, errar, ajustar e, acima de tudo, não ter medo de parecer ridículo ao perguntar "Como isso funciona?". Porque no final das contas, a tecnologia — seja um avião, um computador ou uma rede neural — sempre respeitará quem a compreende de verdade. E quando dominarmos a IA com a mesma competência que dominamos qualquer outra ferramenta, não estaremos mais voando atrás do avião. Estaremos no comando, planejando a rota, prontos para qualquer turbulência.

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